Aos mestres com desrespeito

Dizem que meu povo

É alegre é pacifico.

Eu digo que meu povo

É uma grande força insultada.

Dizem que meu povo

Aprendeu com as argilas

E os bons senhores de engenho

A conhecer seu lugar.

Eu digo que meu povo

Deve ser respeitado.

Como qualquer ânsia desconhecida

Da natureza

Dizem que meu povo

Não sabe escovar-se.

Nem escolher seu destino.

Eu digo que meu povo

É uma pedra inflamada

Rolando e crescendo

Do interior para o mar.

_________________________________

*Alberto da Cunha Melo

Sobre coisas sem definições

Também conhecida como federação de partidos amorfos, miríade de organismo políticos assintomáticos, não cheira esquerda ou direita, como porcos, resfastelam no cocho de quem derrama mais lavagem.

Tomando emprestado um trecho bíblico, essa é a definição de “centrão”, em analogia de proximidade.

(Melhor seria que você fosse frio ou quente! Assim, porque é morno, não é frio nem quente, estou a ponto de vomitá-lo da minha boca) Apocalipse 3:15-16

200 anos de Engels

Como sábado, 28 de novembro, marcará o bicentenário de Frederich Engels, fica aqui uma pequena homenagem ao intelectual que dividiu águas entre o socialismo utópico e o socialismo científico.

Mente sagaz, além de formalizar concepções nas áreas teóricas das ciências humanas, atuou como correspondente internacional do New-York Dailly Tribute, Die Presse (austríaco) e Der Sozial-Demokrat (Alemanha).

Elaborou artigos e dissertações referente a guerra de secessão estadunidense, além de sua compreensão analítica a respeito da guerra civil Americana, produziu textos referentes ciências militares analisando conjunturas da Prússia, França e Inglaterra.

Em seu artigo ” A campanha da constituição Imperial”, escreve sobre a insurreição de maio de 1849 explanando que o confronto, embora de gênese democrática-burguesa, que diretamente beneficiaria o potentado burguês da Europa, fora conduzida pela pequena burguesia e dilatado por forças propulsoras na classe trabalhadora.

Não haveria a codificação de materiais sócio/políticos ou qualquer maturação de reflexão social sem o contributo de Engels, este que não era a sombra de Marx ou seu segundo violino, mas um pensador de prospecção e profuso entendimento científico.

Ainda lembro dos anos de discente na faculdade de História, a concepção do marxismo era esquartejada, talvez pela limitação de tempo para formação, estudando aqui e acolá algum fragmento mais pontual na disciplina ministrada, uma parte com a filosofia da história, outra com a antropologia, mais uma com sociologia, o estudo totalizante não era possível, acredito até hoje que pelo curto tempo para formar um professor no Brasil era inviável, sendo necessário a continuidade dos estudos de teoria política de forma independente dos graduados na medida que adquiriram capilaridade por meio da práxis no cotidiano.

Engels não pode ser definido como um cientista político, filósofo, historiador, jornalista ou revolucionário em concepções apartadas.

Mutilar Engels é desmembrar o próprio materialismo dialético, foi tudo em um conjunto, um verdadeiro polímata, categoria de intelectual cada vez mais inexistente no mundo presente.

Definições de Artes

É dito que para tudo existe perdão…menos o belo, beleza é um pecado que não existe perdão.

De todas as grandes conquistas que o governo de Lenin fez granjear, foram as artes que sofreram um contraponto crítico e digno de se comentar.

Se por um lado o período leninista propiciou acesso popular as veredas das artes, antes um monopólio da nobreza czarista, agora era possível assistir concertos e ouvir música de câmara em zonas de fábricas de Moscou, São Pestesburgo e outras cidades, antes acesso restrito, agora usufruído pelo povo.

É importante salientar que erros foram cometidos no processo, sob a égide da nova conjuntura, ditames estabelecendo dicotomia entre ” arte burguesa subjetiva” e o movimento proletkult (proletárskaya Kultura) foram formulados.

Embora a nova sociedade aceitasse a confluência entre a arte do conservadorismo em coexistência ao experimentalismo, o proletkult desdobrou uma nova estética nas artes gráficas, diretamente não facultado a música, arregimentaria artistas do futurismo que proporcionaram uma extensa gama musical.

Sob a necessidade de propaganda do novo sistema, artes sem adequações a nova gênese sócio/política, eram frutos de censura leve ou expresso banimento por “pensamento anti-revolucionário”, sob essa realidade, Sergei Rachmaninoff, romântico tardio, partiu para o exílio, assentado primariamente na Escandinávia e posteriormente nos Estados Unidos onde viu sua arte florescer.

A dissonância entre “arte burguesa” e “arte proletária” foi superada na esteira da História.

Não se condena a música de Wagner por sua ressignificação nazista, não se deixa de estudar a filosofia de Heidegger por sua predileção ao partido de Hitler, necessário separar o homem da obra.

Arte é arte, sendo necessário apartar o sujeito e a obra, o homem é finito e a arte é imortal.

Afirmar que determinada veia artística é “burguesa” e efêmera é o mesmo que um burguês afirmar que literatura de cordel não é literatura por ser popular.

Estado, plantel e grilhões

Ainda há os que acreditam que o problema das polícias no Brasil é a militarização.

O que dizer de países que não há políciamento militar e o dispositivo de coerção é tão brutal ou ainda mais recrudescido que o brasileiro?

A questão é profusa, para modificar é preciso reaprender , não basta a mudança de nomenclatura, não adianta trocar a farda por um uniforme, deixar os quartéis e assentar em departamentos de polícia.

Estamos ligados por historicidade escravagista que ainda não foi superada, na Latino América e na anglo-saxã também.

A segunda foto desse post o correu na Bahia, ganhadora do prêmio ESSO de jornalismo em 1983, chamada de ” todos negros”. Flagra um PM amarrando suspeitos pelo pescoço em detrimento ao uso de algemas.

Você vê diferenças entre o caso estadunidense na primeira foto e a situação brasileira na segunda? Há dissonância significativa fora a militarização brasileira?

Capitães do mato ou Texas rangers, no final a consciência histórica está em séculos passados da mesma forma.

Açougueiro

O exército brasileiro utiliza por terminologia interna a palavra ” guerreiro” para designar seus recrutas após concluso o período de conscritos, aos praças de carreira e também aos cadetes pós conclusão da academia militar.

Não é o termo que incomoda, quem é formado para guerra é de fato guerreiro, mas há diferenças entre matar um combatente armado durante um conforto bélico e ASSASSINAR um prisioneiro com choques, lesão corporal e estupro, Ustra não é guerreiro, Ustra é assassino.

A obra apresentada na foto é o livro ” Dos filhos deste solo”, uma serie de depoimentos e narrativas das torturas ocorridas nos porões do poder, o livro contém nomes, numeração de placas de carros, CRMs de legistas que atestavam as mortes após as torturas, boletins de ocorrência, entrada e saída de delegacia e departamento de exército, relatos de militares torturados por não seguir as ordens da repressão, depoimentos de civis, fotos de mesas de necrotério com cadáveres fuminados por choques e outras infinidades de provas.

O elogio do vice-presidente da República ao falecido coronel Ustra, ex-chefe do DOI-CODI do II exército, não é um ultraje apenas a sociedade civil, é uma mancha que macula a própria memória de militares que combateram na Itália para acabar com o terror fascista no mundo.

64 foi um capítulo negro na História desse país, rivalizando em desumanidade com o estado novo de Vargas e com a mão de ferro de Floriano Peixoto.

Sobre fascismo, Grécia e gritos brasileiros

O termo fascismo tento utilizar com o maior cuidado possível, um problema de nossos dias é que as palavras são esvaziadas de seu sentido semântico para se moldurar como xingamentos de forma inadvertida.

Como historiador não posso remar ao sabor da maré e alijar um termo técnico para legitimar um ponto de vista, assim como um advogado não pode usar o bordão popular de “bandido bom é bandido morto”.

Fascismo tem suas definições, sob minha perspectiva analítica a situação da Grécia se encaixa nesse contexto desde a derrocada política do syriza, já a situação da Ucrânia se encontra em seu estágio embrionário de protofascimo.

É notório os perigos oriundos neste módulo de organização podem evoluir para sua formação mais “clássica” de fascismo, embora o facho se module flexível e mutativo adequando aqui e acolá segundo a formação de cada povo, na Alemanha foi de um jeito, na Itália de outro, em Espanha e Portugal em outras formações, na Hungria de outra forma, no Japão segundo seus próprios moldes tradicionalistas, na Argentina segundo adequações peculiares ao peronismo, no estado novo getulista segundo a formação brasileira vigente em sua época.

Atualmente o nome virou sinônimo de xingamento, assim como a palavra comunismo. Usadas gratuitamente e amputadas de seu sentido político técnico.

No caso do atual governo brasileiro, por mais intragável e disforme que seja, não é um governo fascista. Não há técnica necessária para essa carapuça, conduzido por um péssimo militar cheio “cadeia” disciplinar nas costas em seu tempo de caserna, um economista sem referencial e publicação acadêmica sobre o assunto que é responsável.

Governo Bolsonaro não é fascista, é bronco, vinculado aos setores mais recrudescidos da sociedade brasileira como os latifundiários do agronegócio, o fanatismo de bancadas religiosas e setores positivistas do exército brasileiro com menor apreço pelo legalismo, o que não ameniza os estragos promovidos, mas fascista de fato não é. Ou será que é ? creio que dissertei um argumento contrário ao que estava propenso demostrar…bom, a conclusão do caso brasileiro fica por sua própria reflexão.

De toda forma os verbetes estão na praça para todo gosto, fascismo, comunismo, ditadura, democracia, sororidade…há momentos que parecemos mais papagaios de piratas que pessoas querendo debater sobre alguma coisa.

Literatura como consciência política

É possível traçar alguns pontos de confluência entre Boris Pasternak, poeta russo e crítico da revolução bolchevique, autor de “Doutor Jivago” e Reinaldo Arenas, poeta cubano crítico da revolução, autor de “Antes que anoiteça”?

Nascido em uma cuba pré revolucionária, Arenas passou pelo governo de Fulgencio Batista, um país analfabeto, com fome, pobre e oprimido. Pasternak nasceu na Rússia czarista, uma autocracia protofeudal de analfabetos famintos e igualmente oprimidos, a diferença está na gênese de cada qual, Arenas na miséria e Pasternak em uma abastada família de judeus assimilados à cultura russa.

Arenas simpatizou com a revolução pela necessidade inegável de transmutação social em seu país, porém desiludido com as perseguições ocorridas nos primeiros anos pós revolução, taxado de anti-revolucionário pelo teor livre de seus poemas e apontado como degenerado, por sua homoafetividade, passou pelo cárcere e os julgamentos do tribunal da revolução, fugiu da ilha e morreu no exílio.

Pasternak, vencedor do Nobel de literatura em 1959, não foi autorizado receber o prêmio pela natureza politica que se desdobrava na esteira da guerra fria. Ironicamente o personagem de seu livro, Jivago, também possuía problemas com as autoridades soviéticas, mas sensível a causas da miséria. Em muitos aspectos Jivago é um Toten, um “alter-ego” do próprio Pasternak.

É importante salientar que Pasternak não tinha problemas diretos em aceitar os ditames do partido, seu problema era com toda e qualquer forma de organização política, para ele, o erro está na organização e na supressão indivíduo pelo coletivo. Participou de reuniões contra o fascismo quando este se espraiou pela Europa, afirmava que o melhor modo de combate a organizacão do terror era não se organizar.

Por motivos óbvios “Doutor Jivago” não fez sucesso dentro da URSS, os textos foram contrabandeados para além da “cortina de ferro” e editados em solo italiano. A proibição vigorou até 1989, liberado após abertura política de Gorbachev.

A obra do cubano Arenas, “Antes que anoiteça”, foi escrita no exílio e não passou pelo mesmo problema do crítico russo.

O papel da literatura é crucial em todo e qualquer regime sócio/político, para impedir condutas arbitrárias, devendo agir como um exame de consciência dos povos e refletido em sentido crítico, muito além de uma limitação estética da cultura e erudição.

Distopia

Como ” Animatrix” nos ajuda a compreender a normalização das mortes pelo covid-19, um milhão de mortos no mundo em nove meses de pandemia, uma alegoria das máquinas.

Segundo a Universidade Johns Hopkins nos EUA, verificamos o espantoso número de um milhão de mortos em menos de um ano do flagelo.

Entre países que não aplicaram a quarentena, Estados que negligenciaram normas da OMS e populações que resignificaram a narrativa para continuar com a vida em status de normalidade, presenciamos a escala cifrada em gráficos de jornal contabilizando cada novo óbito apenas como mais um número na estatística total.

Sempre achei a capacidade ficcional em abordar o capítulo humano na Terra como uma indispensável ferramenta crítica de análise temática. Owerll em ” Revolução dos Bichos”, Spiegelman em ” Maus”, para além do atropoformismo definindo nossos arquétipos existe uma interpretação das máquinas, humanizar robôs, ou talvez, desumanização da humanidade, depende da sua perspectiva.

“Animatrix” é um derivado da trilogia ” Matrix”, narra como ocorreu o apogeu do maquinário e a derrocada da humanidade antes da distopia apresentada nos filmes.

O prelúdio estabelecido aqui apresenta a criação de autômatos que, a partir do desenvolvimento de inteligências artificiais, atingiram autoconsciência e necessidade de autopreservação como os homens.

Utilizados como ferramentas de trabalho e sem proteção de direitos humanos ( por não serem humanos) eram descartados e destruídos ( executados na interpretação das máquinas) sempre havendo a possibilidade de substituição.

Entre alegoria apresentada na animação e a realidade pandêmica verificamos um ponto de confluência, exceto por nossos vínculos afetivos, em nível de espécie somos todos dispensáveis e substituíveis.

Antes que anoiteça

Com a idade veio a necessidade de aprender aceitar na interlocução, por vezes de forma amarga, argumentos abalroando minha concepção de mundo. ” Antes que anoiteça” narra a vida de Reinaldo Arenas, perseguido em Cuba nos primeiros anos pós Revolução.

Arenas ,falecido em 1990 no exílio, foi um escritor, poeta e dramaturgo cubano. Simpático a guerrilha, apoiou a revolução por enxergar a realidade de miséria e opressão que seu país passava sobre o governo de Batista.

Oriundo de família pobre conseguiu uma vida melhor no início da Revolução, viveu na capital desde 1963, matriculado na escola de planificação e depois na Faculdade de Letras de Havana, estudou filosofia e literatura, porém sem completar a graduação. Trabalhou na biblioteca nacional José Martí, por se encarar como livre pensador expressou suas inquietudes em textos e peças, cada vez mais consideradas como conduta anti-revolucionaria e imperialista pelo novo governo.

Presenciou a perseguição de santerias e terreiros cubanos pela polícia, algo que chamou de terror revolucionário pós-parto, sua perseguição também ocorreu, além dos textos, por sua orientação sexual homoafetiva, verificada pelo poder vigente como um ato depravado, degenerativo e um vício americano ( o que os soviéticos chamavam de “uranismo” também passou a ser perseguido em Cuba)

“Antes que anoiteça” não se trata de uma depreciação aos ganhos revolucionários, o que o próprio Arenas reconhecia, mas aborda questões importantes de perseguição e recrudescimento que uma ala consistente das esquerdas evita dimensionar.

Não há como expor os problemas estruturais da sociedade de mercado capitalista e propor um contraponto sem avaliar os acertos e principalmente os erros ocorridos na percepção de um caminho oposto já experiênciado.

Como dito por Arenas: ” Os tambores da revolução ecoaram por toda Cuba, mas as maravilhas do som não eram para todos dançarem”

Crie seu site com o WordPress.com
Comece agora