Vá & Veja

A verdadeira barbárie é Dachau; a verdadeira civilização é, antes de tudo, a parte do homem que os campos de extermínio quiseram destruir. ” -André Malraux

Filmes com temática em beligerâncias são um nicho cinematográfico; Quantas vezes já assistimos enredos de conflitos em variadas épocas? Guerras médicas, púnicas, confrontos feudais no medievo, secessão, independências, conflitos entre xogunatos, guerra por recursos, confrontos por mentiras, até Tróia utiliza a fuga de uma mulher como escusa para mortes em nome do “amor”.

Muito foi escrito e reproduzido com o tema guerra na sétima arte, raras exceções, estes filmes são açambarcados como um traço da cultura de massa, meios de produção do entretenimento para consumo no bojo popular como mecanismos de lucro, letargia ou amortização crítica. Como referido ainda neste parágrafo, exceções, são perceptíveis, estão aí ‘A Lista de Schindler’, ‘Cartas de Iwo Jima, ’O Grande Mestre’ (embora um filme de artes marciais, mostra o brutalíssimo da ocupação japonesa na Manchúria chinesa com maestria), porém nenhum, repito em caixa alta, NENHUM, filme foi tão profundo em demostrar a selvageria, bestialidade e podridão da guerra como ‘Vá & Veja’, agora vamos entender o motivo.

Vá & Veja’ é filme soviético, produzido em 1985, sob direção de Elem Klimov na extinta URSS, retrata a invasão do leste europeu pela máquina fascista (e sim, estou utilizando o termo fascista para nazistas propositalmente, possuem particularidades, mas sua gênese, forma e conteúdo são oriundas em toda liturgia messiânica/política e corporativista do facho). A trama ocorre na esteira do lebensraum, “espaço vital”, apregoado por Hitler em Mein Kampf como uma zona crucial para a sobrevivência e desenvolvimento do povo germânico, segundo ele, no leste da Europa em terras balcânicas e russas, adquiridas na refrega da Blizkrieg, a doutrina militar de guerra relâmpago teorizada por Heinz Wilhelm Guderian, que deixou os principais potentados europeus de joelhos no início da guerra, assim como ocorreu com a capitulação de Paris no oeste europeu, a máquina fascista utilizou a mesma tática no leste da Europa, sob a ideia de subjugação, extermínio e, para os sobreviventes, o escravagismo das nações eslavas.

A trama ocorre nos territórios da Bielorrússia, aqui presenciamos toda barbárie, não apenas dos alemães, mas da miríade de nações que compunham suas falanges, desde o poderoso sexto exército da Wehrmacht (composto por alemães veteranos de combate e experienciados na guerra civil espanhola) até grupos de extermínio e esquadrões da morte formados por búlgaros, romenos, finlandeses e outras nacionalidades que lutaram sob o manto de Berlim.

O conflito no leste da Europa foi o grande vale de lágrimas da II mundial, sem eurocentrismo e reconhecendo o sofrimento no Norte da África e também em nações insulares e peninsulares do pacífico Sul, vide os abusos japoneses na Coreia, foi na banda oriental do velho continente que a besta fascista pariu sua prole pestilenta, foi no Leste que os filhos do fascismo superaram seus progenitores na perpetração do sofrimento. Bielorrussa, Ucrânia e outras nações foram abusadas, seviciadas e sistematicamente executadas por apoiadores, diretos e indiretos, do III reich; romenos, búlgaros, húngaros e tantas outras nacionalidades levaram o horror fascista em níveis potencializados, o filme mostra essas questões com um realismo aterrador.

Além da violência gráfica exposta pelo filme, há também a violência psicológica, presenciamos o protagonista enlouquecendo, gradativamente, ao testemunhar abusos após abusos dos vilarejos e cidadelas por onde passou. Tudo é profuso, denso e necro-formativo, o filme é uma dança constante de Thanatos sobre a Terra, tudo aparenta morte e desespero, digo dança já que a forma da desgraça, literalmente, baila no sofrimento (redigir que mais isso é entregar pontos que estragariam sua experiência, então paro por aqui), a semiótica não é vazia, essa dança é um simbolismo forte na obra.

Vá & Veja’ não se trata de ufanismo russo, sabemos que na Guerra Fria, cinema foi ferramenta de propaganda por pólos litigantes, porém o filme é um ato crítico, um manifesto político/humanitário de denúncia (e principalmente vigília) contra o fascismo. Parafraseando Bertolt Brecht, cuidado! A cadela do fascismo está sempre, SEMPRE, no cio.

Loucura e sociedade

Uma vez apresentei um post no IG referente ao ‘Bota-abaixo’, uma reforma urbana e planejamento arquitetônico excludente de Pereira Passos no Rio de Janeiro, desembocando no crescimento urbano desordenado e no processo de favelização.

Hoje chegou a vez do discurso médico, igualmente excludente e eugenista. O problema do Brasil não é, em essência, a falta de educação formal, mas a condução tecnista dos discursos científicos atrelados aos corredores do poder.

A “loucura” enquanto fenômeno clínico só passou a ser estudada como doença no século XIX, no mundo antigo o louco era visto sob o manto do misticismo, éforos, horáculos, videntes ou algum tipo de saber meta-humano adquirido como benção ou punição pelos deuses. Isso é mutativo de cultura para cultura, verificado que ao tempo de Cristo no médio oriente a loucura era vista, hora como uma possessão de demônios ou como motivo de chacota, o “idiota” do vilarejo, muitas vezes perseguido ou instigado as ações para o entretenimento local.

Verificada na idade média a loucura com um “saber fechado”, aqui o louco, como alguém que expurga seus “pecados” no isolamento dos homens, seja o isolamento geográfico mantendo os doentes apartados dos “civilizados” ou o isolamento da própria condição mental ( a vela está acessa, mas não há ninguém na cabana) um “corpo sem alma” que vaga entre os homens, sem compreender e sem conseguir sua compreensão.

No século XIX a loucura é vista como uma doença, mas o discurso médico se apodera da condição sanitária como um processo de exclusão institucional dos excluídos por condição mental, aqui os manicômios, sanatórios e asilos figuram como centros para apartar os “sadios” dos “loucos”, sem conceito ético, verificados como pessoas abaixo do conceito de “normalidade”, eram isolados e utilizados em sequências de experimentos médicos pelo progresso científico no estudo da loucura e da própria condição humana.

Torturados, vitimados em testes de novas drogas, experiências com eletrochoque, agressão física e psicológica de forma constante os internos presenciavam uma sucursal do inferno na Terra, para citar Huxley, não seria a Terra o inferno de algum outro lugar?

Se é para romantizar a barbárie, então façamos com as mazelas da nossa terra

Que me perdoem os russos cossacos e seus chapéus ushankas, mexicanos bandoleiros e seus sombreros, cowboys americanos e seus chapéus do oeste indômito…minha terra também carrega o símbolo bravio de guerreiros.

Bandidos? Sim! Mas quem vivem em guerra contra jagunços, volantes, exército, polícia e outros bandos do cangaço, forjados na refréga do fogo sertanejo, atende por qual nome? Quem vive em guerra é da guerra, guerreiro na semiótica dos paramentos de estrelas, nas flores desenhadas ou costuradas no bornal, na oração de “fecha-corpo” sob o manto de Nossa Senhora, na semântica dos verbetes belicosos e na estrutura nômade de vida e morte no semiárido brasileiro.

Vikings? É sua liberdade admirar a truculência do norte da Europa. Bikers? Pode ficar com os motoqueiros americanos! Se é para admirar a vergonhosa barbárie eu escolho as mazelas da minha terra, os guerreiros do meu sertão, a história do meu povo brasileiro.

Como afirma Jorge Amado no livro ‘Capitães de Areia’:

” Crianças que estudam para cangaceiro na escola da miséria e da exploração do homem”

A roda da História

Proletariado em Marx
Precariado em Bauman
Parecem a mesma coisa, mas não são.

Um torneiro mecânico, transformando o aço em panela, é um proletário.
Um porteiro de condomínio ou uma senhora que efetua trabalhos como empregada doméstica são precarizados.

Nem toda exploração advém da produção direta, há explorativos tão violentos na relação do homem pelo homem, mas que não produzem um prego para sapato, porém não deixa de ser exploração.

O muro de Berlim caiu em novembro de 1989, a República de operários e camponeses afundou sobre o próprio peso e burocracia, implodindo em dezembro 1991 e colocando fim ao modelo soviético de socialismo, a China está composta por bolsões de capital ( Pequim, Xangai, Hong Kong e Cantão) só faltam vender ar para o ocidente enquanto estabelecem outras relações de exploração profunda e desumana na Ásia, seu quintal político, agindo tal qual os estadunidenses na América Latina.

Francis Fukuyama errou ao afirmar que a derrocada da URSS marcava o “fim da História”, ponto conclusivo na dialética dos povos.

Exploração é o motor da História. Sangue e suor é o combustível do mundo; seja um escravo do mundo antigo exaurido em uma mina de sal em Cartago, um camponês atrelado ao uso ( e abuso) do campo por senhores de feudo, um escravo africano em Minas Gerais explorado pelo colonato escravagista na ótica do capital mercantilista, um operário trabalhando 16 horas em uma fábrica inglesa no século XVIII ou um motoboy entregando por sistema de aplicativo nas ruas de São Paulo.

Israel e Palestina: Raízes de um confronto moderno

Para tentarmos compreender a dissonância no Médio Oriente, mais especificamente a beligerância entre o Estado israelense e os assentamentos palestinos, precisamos retroceder em prospectos históricos; não uma regressão aos conflitos inseridos no contexto do mundo antigo e registrados nas páginas do velho testamento, busco a compreensão em um retrocesso na esteira da própria modernidade, um retorno as raízes modernas de organização no Oriente Médio.

O crepúsculo do século XIX presenciou o nascimento de movimentos nacionalistas que se espraiavam por toda Europa continental, o sionismo toma forma e conteúdo ainda no ano de 1896, um arcabouço teórico desenvolvido por Theodor Herzl, jornalista austro-húngaro de ascendência judaica, postulando que a sobrevivência do povo judeu, dispersado pelo mundo, dependia crucialmente da criação de um Estado israelita para assentamento da nação.

Sob a égide das teorias sionistas, era necessário a criação desse Estado, em um local onde o povo judeu pudesse professar sua fé e externar seus traços culturais sem o risco de assédio xenofóbico, assédio este que já grassava o povo israelita em países como Espanha, França, Hungria, Itália, Holanda e que, curiosamente, apresentava maior tolerância na Alemanha anos antecedentes ao período entre guerras e anterior ao fascismo/nazismo, modulados de forma rascunhada no início década de 20 e potencializado com maior intensidade após a crise econômica de 1929.

Muitos locais foram aventados para criação do Estado de Israel, teóricos sionistas refletiam a possibilidade em assentar o Estado na América do Sul, dentro de um território cedido pela Argentina, dentro do continente africano na área hoje correspondida a Uganda, parte de um programa britânico de cessão territorial, na ilha de Grand, margeando o rio Niágara em terreno canadense, ou até mesmo na União Soviética cogitando uma ocupação autônoma de judeus trabalhadores na fronteira entre Rússia e China.

Entre as correntes sionistas, o plano de assentamento majoritariamente postulado, defendia a fixação do povo israelita no território histórico/cultural contido na Torá e velho testamento, a região geográfica do Oriente Médio onde se desenvolveram os reinos de Judá e Israel, a história de Davi e Salomão, a região conhecida dentro daquele momento histórico como Palestina Otomana, fração territorial de um contexto administrativo maior do império Turco-Otomano chamada de província do Damasco, uma zona de ocupação do império Turco sob vigência até sua derrocada na Primeira Guerra Mundial.

Com a dissolução do Império Otomano após uma revolução de administração interna, consequente na derrota na Primeira Guerra, o império se esfacelou e os Britânicos receberam um mandato de administração da então Palestina Otomana, governando aquela localidade em sucessão do extinto império turco-otomano.

Sob administração inglesa, a região palestina, possibilitou o escoamento de pequenas comunidades israelitas, estás que se organizaram em Kibutz, sistemas de assentamentos comunitários e fazendas comunais, hora por necessidades gregárias de autoproteção, mas também pela difusão de correntes sionistas-socialistas, uma das muitas variantes do sionismo, mas especialmente difundida pela ideia do advento socialista e as experiências de fazendas comunais, exitosas até aquele momento histórico, na antiga União Soviética que possuía muitos judeus de correntes sionistas-socialistas.

A administração britânica, sob evocação da Declaração de Balfour em novembro de 1917, um documento que permitia os assentamentos autônomos israelitas, mas proibia a supressão ou interposição das manifestações culturais árabes e religiosas islâmicas na região palestina, porém os britânicos também defendiam um documento intitulado Livro Branco, datado em 1939, limitando a imigração israelita para a região e vetando a compra ou qualquer forma de aquisição de terras árabes por judeus na época, gerando uma interpretação muito questionável de organização da região e complicando ainda mais a questão devido a dualidade da postura inglesa em relação aos judeus durante a alvorada dos movimentos nazi/fascistas na Europa.  

Após a segunda Guerra Mundial, judeus presentes na palestina somavam a densidade populacional de 600.000 pessoas, uma conjunção que somou os residentes imigrados nas décadas de 20 e 30 e posteriormente os sobreviventes europeus dos campos de concentração e extermínio do nazismo, a permissão britânica para os assentamentos judeus, embora necessária dentro daquele trágico momento histórico pós barbáries do fascismo, não conseguiu efetivar uma administração mediadora entre palestinos e israelitas, tensões começam a tomar forma no caldeirão étnico/cultural  que se manifestava a palestina mandatária dos britânicos.

Para tentar solucionar a dicotomia e os atritos sociais, foi manifesto em 1947, durante a Assembleia Geral das Nações Unidas, um projeto de criação para dois Estados soberanos na região, sendo um Árabe para os palestinos e outro Israelense para os sionistas, Jerusalém, devido sua historicidade e situação delicada entre judeus e mulçumanos por suas manifestações de localidades sagradas, além da sacralidade para a cristandade também, teria um regime de administração especial e funcionaria, mais ou menos, como uma cidade cosmopolita em um regime internacionalista. O projeto foi aceito por israelitas assentados na região, mesmo com a oferta de terras mais áridas e periféricas se comparado com a região central de terras mais férteis aos palestinos, mas o projeto foi declinado por etnias árabes, dessa forma sem implementação da proposta de partição da região em dois Estados.

Em 14 de maio do ano de 1948 o mandato britânico para administração palestina expirou de forma oficial, embora o Reino Unido concordasse com o projeto de partilha postulado pelas Nações Unidas, informou que não o aplicaria, já que o mandato acabou e os britânicos não queriam se comprometer ainda mais com a volátil política local do Médio Oriente, não estendendo seu mandato administrativo. Nesta data também ocorre a proclamação, unilateral, de criação do Estado de Israel por David Ben-Gurion.

O primeiro conflito formal entre árabes e israelenses se inicia no dia seguinte a declaração de soberania do Estado de Israel, uma coalizão composta por Egito, Síria, Líbano, Iraque e Jordânia atacaram o recém fundado Estado de Israel, conflitos que eclodiram durante todo um ano de combates, apresentando um armistício em 1949, delimitando um espaço divisório chamado de linha verde; embora Israel tenha declarado sua soberanidade em 1948, a Palestina nunca conseguiu se constituir enquanto Estado independente, muito pelo contrário, acabou ocupada por Israel em alguns territórios e fragmentada em outros, sendo a Faixa de Gaza controla pelo Egito enquanto a Cisjordânia, bem como a ala leste de Jerusalém ficou sob controle da Jordânia.  

Sob a realidade de conflito, Israel ocupou um território muito maior que o projeto previsto pela ONU, cerca de 700.000 mil árabes foram expulsos ou refugiados de suas cidades, assentados em países vizinhos como Síria ou Jordânia. Em 1964 é fundado, com apoio da liga Árabe, a OLP (Organização para Libertação da Palestina), uma confederação de múltiplos partidos simbolizada de forma mais proeminente na figura de Yasser Arafat, fundador da OLP, também líder do Fatah, facção político/militar mais densa na miríade da OLP.

Em 1967 eclode uma nova guerra formal contra uma coalizão árabe, durante o que ficou conhecido como Guerra dos Seis Dias, Israel trava combates contra Egito, Síria e Jordânia, vencendo as forças árabes e aumentando ainda mais seu território, ocupando a Faixa de Gaza, a Península do Sinai, colinas de Golã e a ala leste de Jerusalém (controlada pela Cisjordânia) além de territórios na Cisjordânia. A guerra não foi condenada pela comunidade internacional, uma vez que Israel reagiu aos ataques árabes, porém sua expansão territorial é condenada pela ONU, inclusive com muitos países, incluindo o Brasil, não reconhecendo os territórios Israelenses ocupados e anexados após 1967, reconhecendo sua manutenção territorial em zonas ocupadas antes deste ano.

Essas ocupações levaram os árabes, Egito e Síria, a mais um ataque, dessa vez em 1973, durante o feriado sagrado judeu que marca o Yom Kippur, levando derrotas aos israelenses no começo dos combates (devido os ataques surpresas em uma data sagrada), mais Israel conseguir reverter a situação derrotando os árabes e vencendo o conflito. Em 1977 a direita política chega ao poder, sucedendo a gestões de fundação com o sionismo-socialista e posteriores administrações trabalhistas; o governo direitista acaba por implementar um sistema de colonato judeu nas zonas ocupadas da Cisjordânia, territórios pós 1967, assentando famílias israelenses para popular a região e sobrepor legitimidade aos árabes.  Em 1979, sob mediação estadunidense, Israel e Egito negociam a paz, com o Estado de Israel devolvendo os territórios das colinas de Golã aos egípcios, dessa forma retirando suas tropas do Sinai enquanto o Egito, maior país árabe da região, foi o primeiro árabe a reconhecer a independência israelense.

Durante toda a extensão das décadas de 70 e 80, a OLP liderada por Yasser Arafat, trava combates contra Israel; no ano de 1987 uma sublevação palestina tomou forma em Gaza e na Cisjordânia, movimento conhecido como a primeira intifada, séries de ataques e protestos violentos ocorridos nas regiões da Cisjordânia de categoria “mista”, locais de coexistência entre palestinos nativos e colonos israelenses pós ocupação, a palavra intifada é oriunda da língua árabe, significando “agitação”, “levante” ou “sublevação”. No mesmo ano é fundado o Hamas, um movimento árabe sunita, baseado em Gaza e que buscava a libertação da Palestina, destruição de Israel e oposição bélica a OLP ( capitaneada pelo Fatah) de Arafat. Outro grupo, fundado em 1982 (corrente xiita), foi formado quando Israel atacou bases no Líbano, dando forma ao Hezbolla, jurando destruir Israel, financiado, consultado e treinado pelo Irã.

Em 1992 os sionistas-trabalhistas voltam ao poder, firmando em 1993 um acordo de diálogos com a OLP na cidade escandinava de Oslo, dessa forma a OLP passou a reconhecer a existência de Israel enquanto o Estado israelita reconhecia a OLP como a legitima representante dos palestinos, evento que gerou os pontos de cisão e conteste com Hamas.

Embora hoje o Hamas tenha crescido em influência nas regiões palestinas da Faixa de Gaza, inclusive vencendo as eleições palestinas em 2006 para administrar Gaza, o Fatah ainda segue no controle de regiões palestinas da Cisjordânia. O Hamas, somando seu caráter de beligerância aliado a uma interpretação religiosa do Islã, afasta o apoio internacional, sendo em alguns países, nivelado ao terrorismo, enquanto a OLP possui características de combate e política laica, prezando pela independência Palestina.

Em 1994 foi a vez da Jordânia reconhecer a existência de Israel, porém a situação voltou a se deteriorar em 1995, data que um judeu da extrema-direita sionista assassinou o Primeiro Ministro israelense, do partido trabalhista, o Hamas, sob o extremismo religioso, efetivou uma série de ataques aos civis israelenses, assim esfalcando qualquer possibilidade de construção do diálogo na região.

A direita volta ao poder em 2002, consequências da segunda intifada palestina e recrudescimento do Estado de Israel que buscava controlar ou destruir seus inimigos, nessa fase Israel começa a construção do famigerado muro, em partes das fronteiras com Cisjordânia e penetrando territórios palestinos. Em 2005 Israel se retira, parcialmente, dos territórios adentrados em 2002 enquanto o Hamas assume hegemonia na Faixa de Gaza em detrimento da OLP.  

Em 2009,2012 e 2014 novos ataques entre israelenses e palestinos tomam forma, o poder do Hamas em Gaza serviu para piorar uma situação bem delicada na região, hora como incursão preventiva, hora como retaliação direta aos ataques primários dos Hamas com foguetes baseados em Gaza.

Em 2017, Trump, reconhece Jerusalém como capital israelense em detrimento de Tel Aviv, dessa forma Israel transfere sua capital para a cidade histórica, berço de 3 religiões e palco motriz de conflitos por controle citadino no decorrer da história, complicando ainda mais a questão com os palestinos.

Hoje Israel é uma das grandes potências militares e tecnológicas do planeta, com apoio americano e boas negociações com potencias europeias, fez seu poder de imposição perdurar no médio oriente em uma história delicada que mescla sua necessidade de sobrevivência e proteção de seu povo com questionáveis incursões militares em guerras assimétricas, abusos, ocupações e contínuos atos de desrespeito aos direitos humanos.

A situação segue sem desfecho, muito sangue derramado de ambos os lados e nenhum vislumbre de luz no fim do túnel.

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Referências bibliográficas

A Muralha de Ferro: Israel e o Mundo Árabe. Shlaim, Avi

A Questão da Palestina. Said, Edward

O Hamas Palestino. Mishal,Shaul e Sela,Avraham

O povo Palestino. Migdal, Joel e Kimmerling, Baruch

Em nome de Deus: O fundamentalismo no judaísmo, no cristianismo e no islamismo. Armstrong, Karen.

Orientalismo – O Oriente como invenção do Ocidente. Said, Edward

100 mitos sobre o oriente. Halliday, Fred

Um Muro na Palestina. Backmann, René

Breve História de Israel. Schwantes, Milton

II República

14 de Abril de 1931, fundada a II República espanhola, uma curta experiência progressista, no entre guerras do século XX. Antes da queda, antes da thanatoscracia protofascista de Francisco Franco, antes que a terra de Cervantes tenha se convertido no bestial laboratório de ensaios para vindoura II Guerra Mundial, Espanha respirou durante um curto período uma possibilidade humanista em um mundo que se recrudescia em assombrosa velocidade.
Abaixo deixo um poema do grande Manuel Bandeira em respeito aos espanhóis da II República.


Espanha no coração:
No coração do chileno Neruda,
No vosso e em meu coração.
Espanha da liberdade,
Não a Espanha da opressão.
Espanha republicana:
A Espanha de Franco, não!
Velha Espanha de Pelaio,
Do Cid, do Grã-Capitão!
Espanha de honra e verdade,
Não a Espanha da traição!
Espanha de Dom Rodrigo,
Não a do Conde Julião!
Espanha republicana:
A Espanha de Franco, não!
Espanha dos grandes místicos,
Dos santos poetas, de João
Da Cruz, de Teresa de Ávila
E de Frei Luís de Leão!
Espanha da livre crença,
Jamais a da Inquisição!
Espanha de Lope e Góngora,
De Góia e Cervantes, não
A de Filipe Segundo
Nem Fernando, o balandrão!
Espanha que se batia
Contra o corso Napoleão!
Espanha da liberdade:
A Espanha de Franco, não!
Espanha republicana,
Noiva da revolução!
Espanha atual de Picasso
De Casals, de Lorca, irmão
Assassinado em Granada!
Espanha do coração
De Pablo Neruda, Espanha
No vosso e em meu coração!


Poema: “No vosso e meu coração”
Autor: Manuel Bandeira

Aos mestres com desrespeito

Dizem que meu povo

É alegre é pacifico.

Eu digo que meu povo

É uma grande força insultada.

Dizem que meu povo

Aprendeu com as argilas

E os bons senhores de engenho

A conhecer seu lugar.

Eu digo que meu povo

Deve ser respeitado.

Como qualquer ânsia desconhecida

Da natureza

Dizem que meu povo

Não sabe escovar-se.

Nem escolher seu destino.

Eu digo que meu povo

É uma pedra inflamada

Rolando e crescendo

Do interior para o mar.

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*Alberto da Cunha Melo

Sobre coisas sem definições

Também conhecida como federação de partidos amorfos, miríade de organismo políticos assintomáticos, não cheira esquerda ou direita, como porcos, resfastelam no cocho de quem derrama mais lavagem.

Tomando emprestado um trecho bíblico, essa é a definição de “centrão”, em analogia de proximidade.

(Melhor seria que você fosse frio ou quente! Assim, porque é morno, não é frio nem quente, estou a ponto de vomitá-lo da minha boca) Apocalipse 3:15-16

200 anos de Engels

Como sábado, 28 de novembro, marcará o bicentenário de Frederich Engels, fica aqui uma pequena homenagem ao intelectual que dividiu águas entre o socialismo utópico e o socialismo científico.

Mente sagaz, além de formalizar concepções nas áreas teóricas das ciências humanas, atuou como correspondente internacional do New-York Dailly Tribute, Die Presse (austríaco) e Der Sozial-Demokrat (Alemanha).

Elaborou artigos e dissertações referente a guerra de secessão estadunidense, além de sua compreensão analítica a respeito da guerra civil Americana, produziu textos referentes ciências militares analisando conjunturas da Prússia, França e Inglaterra.

Em seu artigo ” A campanha da constituição Imperial”, escreve sobre a insurreição de maio de 1849 explanando que o confronto, embora de gênese democrática-burguesa, que diretamente beneficiaria o potentado burguês da Europa, fora conduzida pela pequena burguesia e dilatado por forças propulsoras na classe trabalhadora.

Não haveria a codificação de materiais sócio/políticos ou qualquer maturação de reflexão social sem o contributo de Engels, este que não era a sombra de Marx ou seu segundo violino, mas um pensador de prospecção e profuso entendimento científico.

Ainda lembro dos anos de discente na faculdade de História, a concepção do marxismo era esquartejada, talvez pela limitação de tempo para formação, estudando aqui e acolá algum fragmento mais pontual na disciplina ministrada, uma parte com a filosofia da história, outra com a antropologia, mais uma com sociologia, o estudo totalizante não era possível, acredito até hoje que pelo curto tempo para formar um professor no Brasil era inviável, sendo necessário a continuidade dos estudos de teoria política de forma independente dos graduados na medida que adquiriram capilaridade por meio da práxis no cotidiano.

Engels não pode ser definido como um cientista político, filósofo, historiador, jornalista ou revolucionário em concepções apartadas.

Mutilar Engels é desmembrar o próprio materialismo dialético, foi tudo em um conjunto, um verdadeiro polímata, categoria de intelectual cada vez mais inexistente no mundo presente.

Definições de Artes

É dito que para tudo existe perdão…menos o belo, beleza é um pecado que não existe perdão.

De todas as grandes conquistas que o governo de Lenin fez granjear, foram as artes que sofreram um contraponto crítico e digno de se comentar.

Se por um lado o período leninista propiciou acesso popular as veredas das artes, antes um monopólio da nobreza czarista, agora era possível assistir concertos e ouvir música de câmara em zonas de fábricas de Moscou, São Pestesburgo e outras cidades, antes acesso restrito, agora usufruído pelo povo.

É importante salientar que erros foram cometidos no processo, sob a égide da nova conjuntura, ditames estabelecendo dicotomia entre ” arte burguesa subjetiva” e o movimento proletkult (proletárskaya Kultura) foram formulados.

Embora a nova sociedade aceitasse a confluência entre a arte do conservadorismo em coexistência ao experimentalismo, o proletkult desdobrou uma nova estética nas artes gráficas, diretamente não facultado a música, arregimentaria artistas do futurismo que proporcionaram uma extensa gama musical.

Sob a necessidade de propaganda do novo sistema, artes sem adequações a nova gênese sócio/política, eram frutos de censura leve ou expresso banimento por “pensamento anti-revolucionário”, sob essa realidade, Sergei Rachmaninoff, romântico tardio, partiu para o exílio, assentado primariamente na Escandinávia e posteriormente nos Estados Unidos onde viu sua arte florescer.

A dissonância entre “arte burguesa” e “arte proletária” foi superada na esteira da História.

Não se condena a música de Wagner por sua ressignificação nazista, não se deixa de estudar a filosofia de Heidegger por sua predileção ao partido de Hitler, necessário separar o homem da obra.

Arte é arte, sendo necessário apartar o sujeito e a obra, o homem é finito e a arte é imortal.

Afirmar que determinada veia artística é “burguesa” e efêmera é o mesmo que um burguês afirmar que literatura de cordel não é literatura por ser popular.

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